UNE: financiamento, fraudes e criminalização dos movimentos sociais

Foram veiculadas na mídia durante a última semana, denúncias de fraude da União Nacional dos Estudantes em relação as verbas do Governo Federal repassadas para a entidade. As acusações são de que a UNE forjou notas fiscais, não prestou contas e nem cumpriu os objetivos dos acordos com o governo.

Os diversos convênios celebrados entre a UNE e o Governo totalizam cifras astronônomicas em comparação ao movimento estudantil em geral. Estima-se que mais de 2 milhões de reais foram entregues a entidade, só considerando os atuais convênios. Parte dessa verba foi para a construção do congresso da UNE, onde uma empresa fantasma de Salvador fez notas frias para entidade utilizar dinheiro do governo.

Em 1968 na passeata dos 100 mil, a UNE defendia o povo no poder. E Agora?

Em nota oficial a direção da UNE se defendeu argumentando que a denúncia não partiu de um orgão oficial e sim da grande mídia e que apesar dos problemas dos atuais convênios, a entidade já utilizou no passado verba do governo de forma regular. Além disso foi dito que essa é uma campanha da direita para criminalizar a entidade e os movimentos sociais e que “O departamento jurídico da entidade estuda as medidas judiciais cabíveis”

Isso levanta questões fundamentais. A primeira delas é a questão do financiamento do movimento estudantil. Até quando devemos ser dependentes do financiamento do estado para nossas atividades? No caso da UNE, esse grande aporte financeiro do governo para a entidade representa claramente um rebaixamento de pautas da mesma, ou seja: a UNE recebe a verba, mas claramente não a usa para a construir a luta necessária do movimento estudantil.

O projeto de resgatar a memória e história do movimento estudantil brasileiro é emblemática. Após a aprovação de um convênio com governo para financiar o resgate histórico, a UNE delegou para a fundação Roberto Marinho (Rede Globo) essa tarefa. Com certeza é difícil pensar que um dos grandes grupos da mídia nacional irá contribuir na construção do movimento estudantil militante e referenciado nos reais problemas da educação e da sociedade brasileira.

Apesar da direção da UNE dizer que está sendo criminalizada pela direita, o que é relativamente verdadeiro, devemos lembrar que essa criminaliação é muito mais ampla. O próprio Governo Federal que apoia e é apoiado pela UNE criminaliza os movimentos sociais em luta, como nos recentes conflitos agrários no estado do Pará.

Esse mesmo governo que financia a UNE, financia também a mercantilização do ensino superior (PROUNI) além de promover sua precarização e a UNE, através de sua direção hegemonizada pela UJS/PCdoB, apoia cegamente essa e outras medidas do atual governo. Na pratica a própria UNE criminaliza o movimento estudantil combativo, como no caso das ocupações de reitoria contra o REUNI, que foram completamente deslegitimadas pela entidade. Outro exemplo é o boicote ao ENADE, puxado pelas executivas de curso e ignorados pela UNE ano após ano.

Enquanto a principal entidade representativa dos estudantes do país estiver nas mãos de uma direção que segue o governo ao ivés dos interesses da base estudantil, vamos enfrentar contradições como essas. A questão fundamental não é se devemos utilizar ou não recursos oriundos dos governos e sim se isso retira a autonomia e combatividade do movimento estudantil. Devemos sempre estar pensando alternativas financeiras e manter nossa coerência à verba advindas do governo. Infelizmente, no caso de nossa sexagenária entidade, junto com as verbas do governo federal atualmente vem também o apoio irrestrito as medidas governamentais que vão na contramão da educação pública, gratuita e referenciada na sociedade.

A FEAB defende a autonomia política, incentivando iniciativas de auto-financiamento. Chamamos o movimento estudantil para esse debate e defendemos que na luta em defesa da educação temos que ter como perspectiva  a transformação da sociedade. A UNE por sua vez deve relembrar de sua história, quando afirmava que seu compromisso era lutar pela educação e pelo Brasil, referenciada pela base e de forma autônoma a partidos e governos.

Coordenação Nacional da Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil – FEAB, Curitiba (UFPR/PUCPR)

Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , . ligação permanente.

2 respostas a UNE: financiamento, fraudes e criminalização dos movimentos sociais

  1. Olá! Gostaria de saber quem é que tá organizando esse blog. Estou querendo algumas dicas pra o blog do meu grupo agroecológico. Abração!

  2. Renato diz:

    Lamentavel ver um movimento forte como a UNE, fragmentar a proprio movimento estudantil.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s