Por trás de um prato de feijão

Mesmo depois de aprovada a liberação do feijão transgênico, seus proponentes seguem inflando seus supostos benefícios. A mistificação criada em torno do tema parece ter ganhado asas.
A nova semente vai “democratizar o consumo do alimento em todas as classes da população”, diz o autor do projeto. Considerando o atual padrão alimentar do brasileiro, será que basta alterar um gene da planta e pronto?
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, do IBGE, indicou queda no consumo de arroz e feijão entre os brasileiros no período de 2002/2003 a 2008/2009. A coleta de dados ocorreu nas áreas urbana e rural em todo o território nacional. No período considerado, o consumo per capita anual da leguminosa caiu de 12,4 para 9,1 kg. Já o consumo de refrigerantes de cola aumentou 39,3%. Os alimentos essencialmente calóricos (óleos e gorduras vegetais, gordura animal, açúcar de mesa e refrigerantes e bebidas alcoólicas) perfazem 28% do consumo no domicílio. O aumento da renda da população em parte explica o menor consumo de bens inferiores como o feijão. Assim, o que se entende por democratizar o acesso ao feijão?
Ainda de acordo com o IBGE, em outra pesquisa, metade da população adulta e um quinto dos adolescentes brasileiros estão acima do peso. É uma epidemia de obesidade. Hoje cada vez mais come-se fora de casa e comida industrializada. A questão é complexa. Para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, algumas indústrias agroalimentícias colocam a saúde pública em situação de risco para proteger seus interesses. Existe “uma história vergonhosa e bem documentada de certos atores na indústria que ignoram a ciência e, inclusive, sua própria pesquisa”, disse (Portal Terra, 19/09/2011).
Voltando ao feijão, os dados da Conab/Ministério da Agricultura, para o mesmo período 2002-2009, apontam que a área cultivada com feijão passou de 4,38 para 4,17 milhões de hectares. No mesmo período a produtividade média nacional cresceu de 732 para 842 kg/ha e a produção foi de 3,2 para 3,49 milhões de toneladas (previsão de 3,78 para 2011). O consumo do grão está caindo não por falta de produção.
E como disseram em artigo cinco ex-integrantes da CTNBio “A Embrapa, através de parte de seus pesquisadores, ao impedir o acesso da comunidade científica ou da população às informações moleculares está contribuindo para o obscurantismo da ciência, ao não querer mostrar o que de fato está ocorrendo no feijão transgênico. Esconder da sociedade o que estará dentro de um prato de comida não foi uma prerrogativa dada pela sociedade a uma empresa mantida com recursos oriundos desta própria sociedade.” A se tirar pelo discurso midiático dos defensores do novo feijão, parece que se desconhece ou se esconde não só o que está dentro, mas também o que por trás de um prato de comida.
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Uma resposta a Por trás de um prato de feijão

  1. Caros estudantes.

    Há vários equívocos no texto acima, provenientes de uma interpretação meio viciada das informações disponíveis e de suas fontes. Vou comentar algumas para levar ao menos a um questionamento do texto, que na minha leitura é muito ruim.

    Primeiro, o fato do consumo de feijão ter caído nos últimos anos é devido a várias causas, uma delas apenas cultural. A outra, caríssimos, é o preço. O feijão está chegando ao consumidor por mais de 3 reais o quilo.Para o pobre, grande consumidor de feijão, isto é muito, muitíssimo. E a causa é a redução da produção, apesar do aumento da produtividade. O pobre come agora o que encontra barato nas feiras. E farinha, claro, que é 6 vezes mais barata que feijão. Do conforto de seus lares de classe media vocês acham que tudo pode ser resolvido com culturas orgânicas e que um feijão GM não vai ajudar em nada. Mas vocês sabem qual é o maior desestímulo para o plantio do feijão? Imaginem… as pragas. O vírus do mosaico dourado certamente pesou muito na decisão do agricultor de deixar de plantar feijão. Resultado: o país importou horrores de feijão para atender o mercado, os preços estão lá em cima e o pobre come menos sua comida preferida.

    Este cenário muda com o feijão GM? Certamente. E este feijão é seguro? Os riscos identificados foram considerados pela maioria da CTNBio como negligenciáveis. Não é completamente seguro, contudo, como não são TODOS OS DEMAIS produtos da a agricultura, sejam convencionais, orgânicos ou GM. Basta ver as mortes na Eurorpa, causadas pelos produtos orgânicos. Os riscos negligenciáveis podem se mostrar importantes em uma escala maior e é por isso que, enquanto aprende, o Brasil faz monitoramento. Daqui há 3 anos, quando o feijão entrar no mercado, haverá gente espiando por toda parte em busca dos efeitos inesperados, que podem surgir, assim como na adoção de qualquer novo produto, mesmo a mais simples batatinha trazida da África por uma família que cultiva orgânico.

    Por fim, na contramão da avaliação de risco que se faz bem no Brasil e em muitos outros países, alguns cientistas insistem que os dados moleculares “escondidos” pela EMBRAPA seriam importantíssimos para predizer riscos. Nada pode ser mais errado: os dados de construção pouco ou nada falam da biossegurança, o que importa mesmo é o fenótipo e sua estabilidade ao longo de gerações. Além disso, agora todos os dados são públicos, antes não o eram para proteger os direitos da própria União (ou seja, nós, brasileiros) em questões patentárias. O processo pode ser baixado na íntegra no site da Embrapa ou da CTNBio.

    Paulo Andrade
    Dpro. Genética/ UFPE e CTNBio

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