Assentamentos do Recôncavo Baiano, onde ocorrerão vivências no CONEA, iniciam produção agroecológica

da página do MST

31 de julho de 2012

Por Rafael Rodrigues
Do NEPPA/BA

“Precisamos produzir muitos alimentos saudáveis pra vender na cidade e ir colocar uma banca de nossa produção na frente da Monsanto, pra provar que podemos produzir sem agrotóxicos o que eles produzem”. Com essa frase, Dona Alvaci, do Assentamento Nova Panema resumiu o desejo de 50 famílias assentadas que, reunidas em um intercâmbio de experiências no Assentamento Recanto da Paz, no município de Mata de São João, iniciaram a implantação do Programa de Formação de Tutores em Agroecologia, uma parceria entre o Núcleo de Estudos e Práticas em Políticas Agrárias (NEPPA) e o MST, que irá atender quatro assentamentos do Recôncavo Baiano.

Reunidos no último domingo (29), estes assentamentos iniciaram a implantação de sistemas de produção agroecológica em suas áreas. Em um dia recheado de mística, trabalho coletivo e troca de saberes, diversas famílias dos Assentamentos Nova Panema, Bento, Santa Maria e Recanto da Paz, que recebeu o intercâmbio, puderam conversar sobre os desafios da produção nas áreas de Reforma Agrária e a necessidade de combater os agrotóxicos nas áreas de produção.

Após assistir o filme O veneno está na mesa, do cineasta baiano Silvio Tendler, diversos agricultores e agricultoras falaram da importância em combater os venenos agroquímicos.

“Antes de entrar no MST, eu trabalhava em uma fazenda aplicando venenos na lavoura. Um dia eu caí do trator, com intoxicação, e fiquei mais de 40 dias internado. Eu soltava uma espuma verde pela boca e minha mãe achou que eu ia morrer, que não ia mais melhorar”, contou Geraldo, assentado do Recanto da Paz e que hoje é referência na produção de hortaliças orgânicas.

“Os índios roçam todo o mato e, ao invés de queimar, juntam e plantam ali mesmo. Eles fazem isso a muito tempo, e sempre funciona. Precisamos aprender mais com eles. Hoje eu junto o resto da capina numa leira e planto minha batata, e nunca precisei usar veneno no meu lote”, disse ao ensinar seus companheiros e companheiras a prática da compostagem.

“Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”

A ideia principal do Programa de Formação de Tutores em Agroecologia é instalar sistemas agroecológicos de produção utilizando a Educação Popular como uma ferramenta de extensão rural, contribuindo com a formação de agricultores e agricultoras que possam levar essas técnicas a mais assentamentos, ajudando a difundir a agroecologia como uma política de produção do MST.

Cada assentamento atendido pelo programa irá construir coletivamente uma horta agroecológica, uma usina de compostagem, uma unidade de produção de húmus de minhoca e um viveiro florestal com capacidade para 6 mil mudas, a serem utilizadas para a implantação de Sistemas Agroflorestais (SAF). 

Os assentamentos também receberam uma casa de farinha mecanizada e uma agroindústria de beneficiamento de frutas, que será usada de maneira coletiva pelos quatro assentamentos, através de uma cooperativa que se formará até o fim do ano.

Cada etapa de instalação destes sistemas de produção é feita através de oficinas pedagógicas, onde a equipe de Extensionistas Populares do NEPPA busca capacitar as famílias para que elas passem o conhecimento aos outros companheiros e companheiras.

“Antes a gente ficava em nossas áreas esquecidos, parecendo coisa velha guardada. Hoje a gente está vindo aqui no Recanto da Paz aprender com os companheiros, e também ensinar umas besteirinhas que estamos aprendendo no Santa Maria”, nos contou Francisco, um dos Agroecólogos Populares que estão em formação.

De camponês para camponês

Sempre trabalhando com a união entre a teoria e a prática, após o debate do filme O veneno está na mesa – e depois de um almoço feito com produtos agroecológicos da Reforma Agrária -, foram feitas alguns métodos agroecológicas que já estão sendo aplicadas nas áreas, e as famílias puderam relatar um pouco dos resultados obtidos com a adoção destas práticas.

As famílias assentadas do Recanto da Paz apresentaram as técnicas e a utilização do biofertilizante, da compostagem orgânica e da cobertura de solo. Cada técnica foi discutida entre as famílias, que trouxeram os resultados positivos que estão tendo com a adoção destas práticas sustentáveis.

Experimentador, Antônio relatou que “lá no meu lote eu uso em cima e uso em baixo. Misturo com água e boto no pé da planta e também pulverizo o biofertilizante para espantar os insetos. Até agora está funcionando, e acho que vai até melhorar por que a planta ficou mais viçosa depois que eu comecei a usar, e só faz umas duas semanas”.

Após a apresentação destas técnicas, as famílias seguiram para a horta coletiva do Recanto da Paz, que será ampliada com a chegada dos equipamentos de irrigação previstos pelo Programa, que já estão disponíveis para os assentamentos.

Uma área de solo degradada foi escolhida pelas famílias do Recanto da Paz para servir de área de experimentação para fazer a recuperação da vida do solo, e todo mundo pode colocar a mão na terra usando o biofertilizante, o composto e a cobertura de solo.

“Esse solo não está morto, está apenas desmaiado. Agora vamos dar um bom chá pra ele que ele vai levantar e ajudar a gente a produzir”, brincou Irani, do assentamento Santa Maria.

União Campo e Cidade

O intercâmbio também serviu para aproximar universitários da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que estão construindo a greve estudantil, às áreas de Reforma Agrária do MST.

Estudantes de Psicologia e de Engenharia Ambiental e Sanitária puderam conhecer a realidade da Reforma Agrária e vivenciar de perto as dificuldades que as famílias enfrentam para produzir, numa conjuntura em que o agronegócio recebe dez vezes mais recursos que a agricultura familiar.

Responsáveis por organizar toda a estrutura do intercâmbio, a equipe de Extensionistas Populares do NEPPA e os estudantes se organizaram em brigadas e dividiram as tarefas entre todos e todas.

Marisvaldo, do Assentamento Bento, falou da importância da juventude na luta pela Reforma Agrária. “Vocês são muito importantes em nossa luta, por que tem coisas que nós sabemos e passamos para vocês e tem coisas que vocês sabem e passam pra gente. É isso que vai fazer a Reforma Agrária melhorar”, falou aos estudantes.

Para Ana Maria, estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária, foi um momento muito especial em sua vida. “Eu cheguei aqui ontem, e o que mais me impressionou foi essa força de vontade, essa garra em estar na terra e querer produzir. Isso me estimula e estudar cada vez mais e a estar aqui, aprendendo com vocês”, disse emocionada.

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