Nego Fugido, Negro Livre

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/11175

Há mais de 120 anos, comunidade do Recôncavo Baiano apresenta saga em busca da liberdade

20/11/2012

Cristiano Navarro,

da Reportagem

Das senzalas nos engenhos de cana-de-açúcar, os escravos cantam, dançam, organizam-se e fogem em busca da liberdade. A mando do Rei, o Capitão- do-Mato organiza os Caçadores de Escravos que saem no encalço dos fugidos. Depois de encontrados, baleados e reescravizados, os escravos (interpretados por crianças e adolescentes), gravemente feridos, são obrigados a implorar por dinheiro para comprarem suas cartas de alforria. Ao lado do Rei e protegida pelos militares, a Madrinha (representando a paz e uma referência à Princesa Isabel) ora assiste a tudo passiva, outra procura pacificar o conflito.

Na última apresentação do Nego Fugido, o epílogo mostra a revolta dos escravos que tomam as armas dos militares e capturam o Rei e seus soldados, exigindo a liberdade. “Queremos a carta de alforria. Queremos a carta de alforria. Queremos a carta de alforria”, gritam. Sob a mira dos revoltosos, o Rei cede as pressões dos escravos e pede para que o Capitão-do-Mato anuncie a abolição. Por fim, os papéis se invertem e os escravos perguntam ao público se alguém quer comprar o Rei.

Atabaques ditam o ritmo da encenação. A letra das músicas contam o desenrolar das ações desta peça teatral apresentada tradicionalmente aos domingos do mês de julho pelas ruas no município de Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA).           

Além de lembrar as lutas no período da escravidão na região do Recôncavo Baiano, o enredo serve para ressignificar a história e dar protagonismo à conquista da abolição aos negros. Com os rostos pintados com uma mistura de óleo e carvão e a boca com tinta vermelha representando o sangue expressam a dor e o sofrimento do povo negro. Os atores são pessoas da comunidade (pescadores, marisqueiros, donas de casa, estudantes) e o impacto visual é assustador.

Ao final de cada apresentação, os participantes e o público celebram cantando e dançando em um samba de roda. Em seguida, os moradores do distrito preparam uma grande feijoada para a comunidade com o dinheiro arrecadado durante a brincadeira (quando a população contribui com a compra das cartas de alforria os escravos).

Mistério oral

Os mistérios e imprecisões sobre o mito repassado pela tradição oral fazem com que os registros e estudos sobre a criação do nego fugido não sejam conclusivos. “Quem inventou? Como inventou? E porque inventou? Eu não sei. Mas eu acredito que essa pessoa quem criou essa história, esteja onde estiver, deve estar feliz de ver que hoje a gente abraçou essa causa, compramos essa tese e estamos colocando adiante” comenta Valdeci Santana, presidente da Associação Cultural Nego Fugido e pescador profissional.

Estudiosos apontam que sua formação se dá no século 19 a partir de uma soma de elementos da cultura jeje-nagô originária da Nigéria e Benin, cultura do candomblé (como o conjunto de três atabaques e seus padrões rítmicos, a movimentação do torso e dos braços na dança e a presença de termos em iorubá nos cânticos), além das práticas da cultura banto Congo-Angola, como o samba de roda. “O nego fugido é uma soma de diferentes manifestações afro-brasileiras e encontramos registros desta brincadeira em nossa comunidade de antes de 1888; portanto, antes da própria abolição” destaca Monílson Santos, que interpreta o Capitão-do-Mato e é mestrando do curso de pós-graduação em Artes Cênica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O mar

Nas décadas de 1970 e 1980, o nego fugido passou por um período de quase desaparecimento, mas a partir de meados da década de 1980 passou a ser reencenado anualmente. “O nego fugido é como a maré que tem seus altos e baixos e depende da lua”, afirma o pescador Valdeci que há 28 anos participa do folguedo.

Nos últimos anos a maré parece estar cheia para o grupo. Neste mês, o Nego Fugido viajou cerca de 1900 Km para se apresentar em São Paulo (SP). Na capital paulista, apresentaram-se para públicos distintos como o das ruas do bairro de classe média-alta de Perdizes e do extremo leste da cidade, no bairro Cidade Tiradentes – periferia onde o toque de recolher vigora pelo crime. “A cada apresentação é sempre uma grande surpresa porque se trata de uma intervenção que interage com o público que a interpreta do seu ponto de vista livre. Em Acupe essa narrativa traz à tona a luta contra a escravidão. O que foi esse processo? Ele já se deu? Ele ainda está acontecendo?” destaca Monílson.

As expressões artísticas de Acupe acontecem sem contar com quase nenhum apoio de recursos públicos. Recentemente a Associação Cultural Nego Fugido comprou um terreno onde tenta a construção de sua sede. “O nego fugido’ cumpre um papel de mais de 100 anos de fortalecimento da identidade local e a educação informal, dos mais velhos para as crianças, sem contar com nenhuma estrutura. Agora queremos, por nós mesmos, montar a nossa sede e investir em nossa cultura” afirma Monílson. Para ajudar na construção da sede é possível fazer doações por meio do site www.idea.me.    

Todos negos

O soldador industrial Evilásio Cruz, que interpreta um dos caçadores, conta que morava na roça e tinha cinco anos quando teve seu primeiro contato a manifestação cultural. “Perguntei: que diabo é isso? E saí correndo atrás dos caçadores”. Desde então o soldador de 58 anos mantém relação com a brincadeira.          

O tempo que ficou sem ser interpretado, o Nego Fugido fez falta para Evilásio e, provavelmente, para os moradores do distrito que em peso se envolvem com as apresentações hoje em dia. “Eu costumo dizer que todos que nascem em Acupe são negos fugidos, por que nada do que é mostrado é ensaiado”.

A comunidade de Acupe – berço de outras importantes manifestações populares como os Caretas de Acupe, Malandus e Bombachas – tem na peça a expressão de suas revoltas e reivindicações “A razão do porquê nós não sabemos. Mas o objetivo nós sabemos que é passar o que acontecia com nossos antepassados. Então, eu resumo assim: fazer para não esquecer, lembrar pra não tornar a acontecer” conclui o soldador.

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