Ao 8 de março: O dia da Mulher nasceu das Mulheres Socialistas!

Muitas são as histórias em torno da origem do dia Internacional da Mulher. O que acostumamo-nos ouvir todo dia 8 de março é sobre reverenciar e homenagear as mulheres que conquistaram seu espaço, ou por serem “mães, bonitas, amorosas, ou até guerreiras por conseguirem exercer dupla jornada de trabalho e ainda serem fortes para se depilar ou aguentar o período menstrual”. São muitos os reflexos da naturalização da exploração do trabalho invisível e da divisão sexual do trabalho da atual sociedade patriarcal em que vivemos. Por outro lado, uma história bastante contada sobre este dia é que foi originado em uma greve, que aconteceu em Nova Iorque em 1857, quando 129 operárias morreram depois de os patrões terem incendiado a fábrica têxtil ocupada por elas. E a partir dela, o significado da data foi consolidado e costuma-se afirmar que ela serve para relembrar estas mulheres e todas as que lutaram para conquistar os diretos que nós mulheres temos hoje.
De fato, cabe reafirmar estes significados e muitos outros que qualificam a força feminina, por mais que algumas reproduções tenham caído no senso comum, por que de certo modo são favoráveis ao sistema capitalista, que tenta mercantilizar esta data e fazer-nos achar que as mulheres já conquistaram todo espaço quem tinham pra conquistar. E assim naturalizou-se também a ideia de que o Movimento Feminista é ultrapassado e não faz mais sentido. “Ora, se a mulher já pode votar, trabalhar, ser independente e até tornar-se presidenta da república, o que quer este tal de Feminismo ainda?!” Para o Capitalismo esta indagação é vitoriosa, pois o sistema continua mantendo o trabalho doméstico invisibilizado – vital para sua manutenção –  como tarefa para as mulheres, mercantiliza nosso corpo e ganha muito em cima de produtos que estabelecem padrões de beleza. Historicamente o Movimento Feminista já obteve sim muitas conquistas, mas para as mulheres da classe trabalhadora, que continuam sendo duplamente exploradas, violentadas e tendo seus direitos negados, ele ainda é força que nos move para muitas outras conquistas pela igualdade e pela nossa libertação.01“Nós não queremos flores, queremos direitos!” Atualmente o que vemos como a representação do dia da mulher é aquilo que acaba reforçando o binarismo contra o qual temos lutado historicamente, ele coloca de um lado a delicadeza da mulher e de outro a coragem do homem, quando nos põe no papel de “enfeitar os seus dias, embelezar seus caminhos, perfumar seu redor, cuidar de você, dar aquele temperinho à sua comida” e por isto “Feliz dia das Mulheres!”. Em contrapartida, Feministas continuam saindo às ruas no oito de março para resgatar a memória deste dia de luta e denunciar as contradições ainda presentes em nossas vidas, as quais o enfeite cor de rosa tem ofuscado.02Resgatar a memória da nossa luta é também resgatar a verdadeira origem do oito de março, uma questão que vem sendo estudada e debatida a cerca de vinte anos. Um livro que traz um resgate histórico que sintetiza esses estudos é As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres de Ana Isabel Álvarez González, lançado em 2010 pela editora Expressão Popular. A obra retrata uma série de fatos que comprovam que o oito de março nasceu da luta das mulheres socialistas, esclarecendo versões que durante anos deixaram no esquecimento essas feministas.03

“(…) O Dia da Mulher é um elo na longa e sólida cadeia da mulher no movimento operário. O exército organizado de mulheres trabalhadoras cresce a cada dia. Há vinte anos, as organizações operárias não tinham mais do que grupos dispersos de mulheres nas bases dos partidos operários… Agora os sindicatos ingleses têm mais de 292.000 mulheres sindicalizadas; na Alemanha são à roda de 200.000 sindicalizadas e 150.000 no partido operário, na Áustria há 47.000 nos sindicatos e 20.000 no partido. Em toda a parte, na Itália, na Hungria, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega e na Suíça, as mulheres da classe operária estão a organizar a si próprias. O exército de mulheres socialistas tem perto de um milhão de membros. Uma força poderosa! Uma força com a qual os poderes do mundo devem contar quando se põe sobre a mesa o tema do custo da vida, a segurança da maternidade, o trabalho infantil ou a legislação para proteger os trabalhadores. (…)” (O Dia da Mulher, 1913 – Alexandra Kollontai)

O período que vai do final do século XIX até as primeiras décadas do século XX foi palco de greves e repressões de trabalhadores e trabalhadoras, demarcado por grande efervescência dos movimentos socialistas. O protagonismo das trabalhadoras nestas lutas era bastante forte e um marco que caracteriza a escolha do oito de março como dia internacional de luta da mulher, dentre uma série de fatos narrados sobre esta data, é o início da Revolução Russa. Em 1917, na Rússia, as mulheres tomaram as ruas de Petrogrado manifestando contra a fome, a guerra e o czarismo, ao mesmo tempo em que operárias do setor têxtil entraram em greve. Essas manifestações cresceram, envolveram outros grupos, duraram vários dias, e no dia das trabalhadoras em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro, no antigo calendário) deram início à Revolução Russa, tornando-se assim uma data memorável.

Abaixo datas históricas sobre as origens do 8 de março:

1900-1907 – Movimento das Sufragistas pelo voto feminino nos EUA.

1907 – Em Stuttgart, é realizada a 1ª Conferência da Internacional Socialista com a presença de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai. Uma das principais resoluções: Todos os partidos socialistas do mundo devem lutar pelo sufrágio feminino.

1908 – Em Chicago (EUA), no dia 3 de maio, é celebrado, pela primeira vez, o Woman´s Day. A convocação é feita pela Federação Autônoma de Mulheres.

1909 – Novamente em Chicago, mas com nova data, último domingo de fevereiro, é realizado o Woman ´s Day. O Partido Socialista Americano toma a frente.

1910 – A terceira edição do Woman’s Day é realizada em Chicago e Nova Iorque, chamada pelo Partido Socialista, no último domingo de fevereiro. Em Nova Iorque, é grande a participação de operárias devido a uma greve que paralisava as fábricas de tecido da cidade. Dos trinta mil grevistas, 80% eram mulheres. Essa greve durou três meses e acabou no dia 15/02, véspera do Woman’s Day.

– Em maio, o Congresso do Partido Socialista Americano delibera que as delegadas ao Congresso da Internacional, que seria realizado em Copenhague, na Dinamarca, em agosto, defendam que a Internacional assuma o Dia Internacional da Mulher. Este deve ser comemorado no mundo inteiro, no último domingo de fevereiro, a exemplo do que já acontecia nos EUA.

– Em agosto, a 2ª Conferência Internacional da Mulher Socialista, realizada dois dias antes do Congresso, delibera que: as mulheres socialistas de todas as nacionalidades organizarão (…) um dia das mulheres específico, cujo principal objetivo será a promoção do direito a voto para as mulheres. Não é definida uma data específica.

1911 – Durante uma nova greve de tecelãs e tecelões, em Nova Iorque, morrem 146 grevistas, causa de um incêndio devido a péssimas condições de segurança. Na Alemanha, Clara Zetkin lidera as comemorações do Dia da Mulher, em 19 de março. (Alexandra Kollontai diz que foi para comemorar um levante, na Prússia, em 1848, quando o rei prometeu às mulheres o direito de voto). Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher é comemorado em 26/02 e na Suécia,

em 1º de Maio.

1912 – Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher é comemorado em 25/02 1912 e 1913. Na Alemanha, o Dia da Mulher é comemorado em 19/3.

1913 – Na Rússia é comemorado, pela primeira vez, o Dia da Mulher, em 3/3.

1914 – Pela primeira vez, a Secretaria Internacional da Mulher Socialista, dirigida por Clara Zetkin, indica uma data única para a comemoração do Dia da Mulher: 8 de Março. Não há explicação sobre o porquê da data. A orientação foi seguida na Alemanha, Suécia e Dinamarca. Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher foi comemorado em 19/03.

1917 – No dia 8 de Março de 1917 (27 de fevereiro no calendário russo) estoura uma greve das tecelãs de São Petersburgo. Esta greve gera uma grande manifestação e dá início à Revolução Russa.

1918 – Alexandra Kollontai lidera, em 8/3, as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, em Moscou, e consagra o 8/3 em lembrança à greve do ano anterior, em São Petersburgo.

1921 – A Conferência das Mulheres Comunistas aprova, na 3ª Internacional, a comemoração do Dia Internacional Comunista das Mulheres e decreta que, a partir de 1922, será celebrado

oficialmente em 8 de Março.

1955 – Dia 5/3 L´Humanité, Jornal do PCF fala pela primeira vez da greve de 1857 em Nova Iorque. Não fala da morte das tecelãs queimadas vivas.

1966 – A Federação das Mulheres Comunistas da Alemanha Oriental retoma o Dia Internacional das Mulheres e, pela primeira vez, conta a versão das 129 mulheres queimadas vivas.

1969 – Nos Estados Unidos, o movimento feminista ganha força. Em Berkley, é retomada a comemoração do Dia Internacional da Mulher.

1970 – O jornal feminista Jornal da Libertação, em Baltimore, nos EUA consolida a versão do mito de 1857.

1975 – A ONU decreta, 75-85, a Década da Mulher.

1977 – A Unesco encampa a data 8/3 como Dia da Mulher e repete a versão das 129 mulheres queimadas vivas.

1978 – O prefeito de Nova Iorque decreta dia de festa, no município, o dia 8 de Março, em homenagem às 129 mulheres queimadas vivas.

No Brasil:

1945 – O PCB cria a União Feminina contra a carestia.

1947 – O 8 de Março é comemorado pela primeira vez no Brasil.

1948 – Com o PCB na ilegalidade, a passeata do 8 de Março é proibida, no Rio.

1949 – É editado, pela primeira vez, no Brasil, o livro de Alexandra Kollontai, A Nova Mulher e a Moral Sexual.

1950 – Em 8 de Março, a Federação das Mulheres do Brasil retoma a comemoração do Dia Internacional da Mulher.

Leia mais em: http://www.piratininga.org.br/publicacoes/mulher-miolo.pdf

Estas datas fazem parte do passado histórico e político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista no começo do século. Recuperar a história do dia Internacional das Mulheres é, também, reafirmar a história das lutas das mulheres inserida na luta pela transformação da sociedade e recompor um pedaço do feminismo que se apresenta como um elo indispensável da luta das mulheres e da luta socialista. O 8 de março continua sendo dia de luta por novas relações de gênero e classe, direitos sociais, políticas públicas e transformação social. Neste ano de 2013 foram realizadas ações unificadas em todas as partes do país, onde muitas mulheres pediram um fim à violência e opressão contra as mulheres, lutadoras que sonham com uma vida justa, igualitária e de paz.

É pela memória do 8 de março, por todas as lutadoras do povo que tombaram, pela história que continuamos a construir em busca da libertação de todas as mulheres, que gritamos:

“A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!”

“Mulheres contra o racismo, mulheres contra o capital, mulheres contra o machismo, o capitalismo, neoliberal!”

“Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!”

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10 A FEAB É DE LUTA E É FEMINISTA!

Contribuição:
Tamara Lacerda – Coordenação Nacional

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