SEM A PRÁTICA NÃO DÁ, EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA NOS CURRÍCULOS JÁ!

Sem a prática não dá, extensão universitária curricular já!

Por Uma formação profissional com consciência Ecológica e Social !

“Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.”
Paulo Freire

A Agronomia no Brasil do seu inicio até hoje tem sido um campo da ciência hegemonicamente (predominantemente) voltado aos interesses do latifúndio, da produção em monoculturas de commodities e do uso de agroquímicos e máquinas em grande escala beneficiando grandes transnacionais estrangeiras. Esta dura realidade para além do conteúdo de nossos estudos se expressa também na forma de como é feita a produção do saber universitário. A estrutura organizativa das universidades baseada no tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, orienta-se pela tese da indissociabilidade dos seus três pilares a serviço do desenvolvimento da sociedade, o que até este momento hegemonicamente não tem deixado de ser uma mera tese. O Processo de formação profissional e construção do conhecimento demonstra um exemplo da mediocridade humana onde os estudantes se tornaram máquinas de decorar com pouco raciocínio e os professores se tornaram os “donos” de todo o saber existente e o narram da maneira menos emocionante, mais retórica e estática possível. Juntos, os mesmos fazem uma dita pesquisa que na maioria das vezes se resume a um monte de papel disponível à humanidade, amontoado no fundo de uma biblioteca no quinto andar de um prédio, onde tanto os professores quanto os estudantes, fingem viver o mais profundo conhecimento, mesmo sabendo que na prática a maioria do que dizem não faz parte da vida real da maioria dos e das agricultoras.

Agronomia no Brasil: Nessa história, de que lado você samba?

Entender o passado para agir no presente e ter um futuro diferente é um elemento fundamental da vida humana. Abaixo tentamos resumir de maneira breve a história da agronomia no território brasileiro, buscando entender como tem se construído de maneira hegemônica a formação dos profissionais da Agronomia, em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro e das formas de agricultura. Podemos dividir de maneira sistemática a história desse campo da ciência e dos cursos universitários da agronomia em cinco grandes etapas:

A primeira etapa é exatamente antes do próprio surgimento do profissional e do ensino universitário da agronomia. É comum na história se marcar o início de uma determinada questão ou fato como se o mesmo fosse fruto do acender de uma luz ou de um decreto divino, sabemos que não é assim, o desenvolver da história é um processo contínuo, conflituoso e fruto de disputas, que fazem as “coisas” acontecerem. Com a Agronomia não é diferente, quando no Brasil habitavam apenas os povos nativos ou indígenas e depois, enquanto nosso território estava sob o modo de produção escravista colonial, não eram necessários profissionais especializados para ordenar o processo produtivo no campo. No primeiro, os povos controlavam todo o processo produtivo, não necessitavam de profissionais para “ensiná-los”. No segundo, o poder da aristocracia bem como a produção era garantido pela força e violência, o que obrigava os escravos a desenvolverem o processo de produção nas grandes monoculturas. A lógica deste último momento não era a de aumentar a produtividade, mas sim de se aumentar o número de escravos e do território ocupado, afinal se tratava de uma colônia onde devia se colonizar o máximo de território possível, garantindo assim a posse das terras para os senhores fiéis à coroa portuguesa.

A segunda etapa trata-se de quando este cenário começa a mudar. O escravismo e a colônia se tornaram ao longo dos anos algo insustentável, tanto pelo aumento da resistência dos negros à opressão, pelo repúdio de alguns setores da classe média urbana ao processo de escravidão e pela pressão internacional, em especial da Inglaterra, que em meio à Revolução Industrial via nos escravos, se libertos, um incremento no mercado consumidor. A partir disso, em 1879 (nove anos antes da abolição), surge o primeiro curso de agronomia do Brasil, fundado em São Bento de Lages, interior da Bahia, hoje pertencente à Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). Este curso surge porque a oligarquia agrária via no fim da escravidão uma ameaça à produção em suas fazendas de cana-de-açúcar e café, principalmente pela falta de força de trabalho. O principal objetivo do curso era transferir para a agricultura brasileira as tecnologias produzidas pela Revolução Industrial inglesa (máquinas e equipamentos). Para esta tarefa de convencer os agricultores a usarem essas tecnologias, era necessário um profissional.

A terceira etapa pode ser marcada pelo avanço da ciência e da indústria química em grande escala no mundo, no inicio do século XX. Como o Brasil era, e até hoje é, uma república de inserção subalterna na economia mundial, os países imperialistas (principalmente EUA) acabam por determinar os rumos de sua economia. Neste caso não foi diferente, a primeira metade do século XX foi marcada pela experimentação da indústria química, em especial a indústria de fertilizantes, na agricultura brasileira, onde se buscava o aumento da produtividade por área. Isso fazia com que os currículos tivessem muito presente esse enfoque.

A quarta etapa pode ser definida na época da dita revolução verde, com o avanço da química fina e da genética (sementes, mudas e matrizes). A Segunda Guerra Mundial produziu nas grandes potências, em especial nos EUA, um grande contingente tecnológico e um enorme aparato industrial, que após o término da guerra não tinham mais utilidade. Esse aparato necessitava ser utilizado e adaptado para algo, a agricultura foi a escolhida. No Brasil esse processo foi consolidado pelo golpe civil militar, que definiu duas formas na lógica do ensino agronômico. Uma foi a implementação em alta velocidade dos pacotes da revolução verde[1], o que alterava ou incrementava o tipo de tecnologia a ser transferida pelos profissionais e, portanto, seu conteúdo acadêmico. Outra foi a própria reforma universitária de 1968, que adotou o sistema norte americano de universidades, criando os departamentos e instituindo o modelo de créditos, transformando as universidades em fábricas de profissionais especialistas, com conhecimento fragmentado, sem senso crítico e pouco dinâmicos.

A quinta etapa é a que vivemos até hoje. Tem como marcos três processos: a abertura democrática do Brasil (fim do golpe civil militar), proporcionando que questões da vida em sociedade e da dinâmica educacional no campo fossem levadas em conta nas grades curriculares, por exemplo, disciplinas das áreas sociais e humanas (mesmo que na maioria das vezes não saia do papel); a crescente monopolização da indústria de insumos agrícolas e a inserção da biotecnologia na agricultura (transgênicos…); e o advento do neoliberalismo na profissão, ou seja, aumento do individualismo na sociedade e universidade, fim da extensão rural pública, aumento da competição entre colegas para a venda da força de trabalho para as grandes empresas, que exigem com “insistência” por profissionais mais dinâmicos, mais precarizados nas condições trabalhistas, menos autônomos e mais obedientes, o que levou também a criação de diversos outros cursos, fragmentos da profissão (Engenharia Florestal, Zootecnia, Engenharia Agrícola).

Estes três processos, combinados com elementos de processos das etapas anteriores, dão origem a lógica educacional da agronomia na maioria das universidades do Brasil. E a dura realidade brasileira tem influência direta e indireta na ação de milhares de profissionais da agronomia. Nossa sorte é que se o profissional da agronomia esteve a serviço da consolidação de uma realidade, ele também pode estar a serviço da transformação da mesma, se sua formação mudar…

Mas como é esse modelo de formação?

 Como apresentamos no início deste texto, o debate e a defasagem em nossa opinião dos cursos de agronomia não se restringem ao conteúdo das grades curriculares, mas principalmente na forma como é produzido e repassado este conteúdo.

As universidades brasileiras nem sempre foram organizadas sobre o tripé do ensino, da pesquisa e da extensão. Na verdade, todos os modelos de universidade da América latina e do Brasil foram importados de outros países. Em nosso país, as universidades são recentes e foram montadas inicialmente sobre dois modelos: o Napoleônico, que tinha por pressuposto um ensino altamente tecnicista e profissionalizante, onde não existia nem pesquisa nem extensão; e o Alemão, que visava a formação de intelectuais, objetivado pelo estudo e pesquisa principalmente na área das humanas. Esses dois modelos coexistiram até a Reforma Universitária de 1968, no famoso acordo MEC/USAID, onde o Ministério da Educação da ditadura militar importou o modelo universitário norte americano, baseado no tripé, extinguindo as cátedras e criando os departamentos com alto índice de especialização. Esse modelo é baseado na ideia de que a universidade deve ser um polo produtor e transferidor de conhecimento. Contudo, o que a história nos mostrou é que, mesmo com o discurso de que o ensino, a pesquisa e a extensão são indissociáveis, esse tripé nunca esteve junto, como será descrito adiante.

O ensino universitário de hoje segue a lógica de toda a educação na sociedade capitalista, a de aumentar o número de informações dominado pela maioria da população, contudo, de tornar em objetivos de uma maioria os objetivos de uma minoria privilegiada, o que custa em não desenvolver nas pessoas a sua capacidade crítica. Isso acontece na forma do que Paulo Freire chamou de prática da educação bancária, marcada por três características essenciais:

1- A narração de conteúdos que, por isto mesmo, tendem a petrificar-se ou a fazer algo quase morto, sejam valores ou dimensões empíricas da realidade. Narração ou dissertação que implica num sujeito – o narrador – e em objetos pacientes, ouvintes – os educandos.

2- Falar da realidade como algo parado, estático, compartimentado e bem comportado, quando não falar ou dissertar sobre algo completamente alheio a experiência dos educandos.

3- O educador aparece como seu indiscutível agente, como seu real sujeito, cuja tarefa indeclinável é encher os educandos dos conteúdos de sua narração. Conteúdos que são retalhos da realidade desconectados da totalidade em que se engendram e em cuja visão ganhariam significação. A palavra nestas dissertações se esvazia da dimensão concreta que deveria ter ou se transforma em verbosidade alienada e alienante. (FREIRE, 2006).

Essa forma de ensino precisa da atual estrutura pouco agradável de “ter aulas”, onde todos os/as estudantes sentam em fila e permanecem ouvindo o professor em pé, com seu melhor amigo[1], o retroprojetor (ou datasono), dissertando sobre teses que tem pouco a ver com as reais demandas da agricultura, durante duas ou três horas e no fim da aula ter uns 5 a 10 minutos de perguntas. Condiz isso também, com o fato de todos e todas os/as estudantes terem obrigatoriamente que serem avaliados (as), por provas carregadas de “decorebas”, onde se avalia muito pouco ou nada, a capacidade de um(a) estudante agir sobre determinada situação da vida profissional, transformando o estudo individual em uma grande perda de tempo, pois poucos dias depois da prova ninguém lembra mais de nada.

Já a pesquisa nas instituições se depara hegemonicamente sobre duas vertentes em nossa área: a de adaptar ou validar tecnologias de grandes empresas transnacionais à realidade brasileira; e a de produzir uma enorme quantidade de papel crítico para que, quem sabe daqui a muitos anos, alguém o ache no fundo de uma biblioteca e transforme em algum útil para a agricultura. Nos dois casos essa pesquisa serve pouco ou quase nada para resolver os reais problemas da sociedade, o conceito de conhecimento socialmente útil passa longe da maioria da pesquisa universitária.

Por fim, o último tronco do que deveria ser do tripé, o “patinho feio” da universidade, a extensão, que ou nunca chega a sociedade, ou chega de maneira precária ou meramente assistencialista. A extensão universitária além de ser pouco valorizada e de ter pouco investimento, por conta da lógica de ensino atual de não se importar com os problemas que não atingem diretamente o estudante, bem como de achar que a universidade só deve formar profissionais para o mercado mesmo, quando existe é difusionista. Ou seja, guarda as marcas da velha extensão que tem como pressuposto a ideia de que a universidade é o grande centro do conhecimento e o resto do mundo precisa ser iluminado por esse conhecimento, levando sempre receitas prontas, produzidas em laboratórios, sob “Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP)” o que não existe na realidade dos ambientes naturais, pouco ajudando em algum tipo de mudança na agricultura. Agindo geralmente somente na aparência dos problemas, com quase nenhuma continuidade temporal e sem entender a verdadeira realidade. Esta infelizmente é a maioria da extensão universitária brasileira, quando não se resume a cursos e/ou workshops.

Existe Saída?

“Não tenho caminho novo,
o que tenho de novo é o jeito de caminhar”
Thiago de Mello

Essa pergunta é corriqueira, a maioria dos estudantes, ao se indignar com a situação precária e medíocre que nos encontramos, se pergunta sobre isso e geralmente acomoda-se e contenta-se, ficando com as velhas expressões: “sempre foi assim”; “tá uma droga mas tem que ser assim”; “não vai mudar mesmo, eu vou é me formar logo e ganhar a minha vida”. Essas e outras formas de reduzir o sentimento de derrota ou de insuficiência é muito comum nos corredores das universidades, ou nos porões dos laboratórios de pesquisa, quando os bolsistas estão exauridos de trabalhar para aumentar o seu “Lattes”. Outros, e não são tão poucos assim, deixam as cadeiras das universidades e vão fazer outras coisas, sendo geralmente, de maneira muito preconceituosa, tachados de vagabundos, preguiçosos ou incapazes. Ao fim e ao cabo, a maioria de nós estudantes se dá por conta da situação ao qual falamos, mas a maioria se rende as “regras do jogo”, e acaba guardando seu descontentamento. Acreditamos que isso se explica por dois motivos. Um é que vivemos num mundo de extremo individualismo e de muita competitividade, onde tudo força o estudante a aceitar “as coisas como elas são”. O outro, é pelo fato dos que não se acomodam terem dificuldade de abrir um caminho coletivo.

Mas voltamos à pergunta, existe saída? Em nossa avaliação, sim. O caminho não é curto e passa pela organização dos/das estudantes para contrapor o modelo de formação que temos. Passa também, para além de contrapor o modelo atual, por construir propostas concretas que mudem essa dura realidade, rumo à formação que queremos: que permita ao (a) estudante se entender e entender o mundo onde vive, compreender melhor a dinâmica da natureza e ter uma grande capacidade de formulação e transformação da realidade.

Sem a prática não dá, extensão universitária curricular já!

Por Uma formação profissional com consciência Ecológica e Social!

O que estamos apresentando nesta campanha não é um fim em si mesmo, é a parte inicial do que chamamos da construção do caminho coletivo. Não pretendemos apresentar soluções prontas, mas abrir um debate profundo sobre uma revolução na forma de construir o saber na Universidade. Reivindicamos um primeiro passo, o de imergir as universidades na realidade concreta do povo brasileiro, de abandonar a lógica bancária de ensinar e aprender, de fazer com que as instituições se aproximem do cumprimento da sua função social, integralizando o tripé do ensino, pesquisa e extensão, onde o esqueleto do processo seja o ato de pensar soluções concretas para problemas concretos e não mais passar os dias em uma sala de aula refletindo sobre uma realidade que não se conhece.

Quando afirmamos que a luta é por uma formação profissional com consciência Ecológica e Social, afirmamos que queremos que nossa formação seja crítica à forma destrutiva da agricultura em nosso país, que destrói as riquezas naturais e expulsa os agricultores da terra. Afirmamos a palavra “formação” entendendo-a como “formar-ação”; afirmamos a palavra consciência como o ato humano de antever o resultado de suas ações, mas também de poder entender seu papel histórico de transformação; a palavra ecológica por compreender de que é urgente e necessário que possamos parar o acelerado processo de destruição da natureza e pensar uma agricultura que contemple a preservação da biodiversidade e um manejo consequente do meio ambiente; e por fim a palavra social, porque o ser humano constrói sua vida em sociedade, mas também porque acreditamos que a sociedade de hoje precisa dar um salto qualitativo na direção de um mundo justo, fraterno e solidário onde impere a igualdade e a liberdade.

Baseando-se em experiências recentes da Universidade da República do Uruguai, onde os estudantes veem, através de sua luta, construindo processos de mudanças de sua universidade, construindo os Espaços Integrais de Formação, mas também nas lutas históricas dos movimentos sociais no Brasil, estamos defendendo a curricularização da extensão universitária. Defendemos que a Extensão Universitária seja atividade obrigatória e articuladora da integralidade do Ensino e da Pesquisa, onde os estudantes tenham no seu currículo atividades de solução e enfrentamento dos problemas, na busca da transformação da realidade da agricultura brasileira, na defesa da soberania popular do Brasil, da produção camponesa e da produção ecológica.

Acreditamos que assim poderemos dar um passo para que a universidade brasileira cumpra sua função social, para que os estudantes sejam profissionais críticos e capacitados e para que agricultura brasileira possa parar de bater tristes recordes, como o do êxodo rural ou do consumo de agrotóxicos…

Aos que não mais se cansam
Aos que já estão cansados, amargurados, e sem vontade
Aos que caminham sem saber para onde, ou tem horizontes paliativos
Aos que ganham, perdem e na moldura se acham, na mesquinharia da vaidade
Aos que nunca se arrependem, ou, tornam o meio em objetivos
Quem no meio de tanta gente caminha só e solitário
Não vê esperança, e na lembrança, se adapta ao que não queria
Caminham, apenados e estressados para o calvário
Ao que era tão triste e revoltado e não sabia
A estes todos é chegada a hora, a hora da revolta
Uma revolta sem volta, dos dantes, ou dos inocentes
Sem retroprofessor, datasono ou alienação,
Com os saberes na mente, a história na mão
É chegada a hora, da virada, dos cansados virarem indecentes
E de inocentes, passarem a serem sujeitos da criação
Aos que não mais se cansam e, na história mostram que talvez as flores não derrotem os canhões, mas que o caminhar grudado pode intimidar os soldados armados, e mudar nossa situação.

Cartilha 01 da campanha, Baixe aqui (cartilhaextencao)

Cartilha 02 da campanha, Baixe aqui (Cartilha Campanha)

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